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Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
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Ministério da Educação
CAPES

Volume 20, Número 1, Jan/Mar - 2016



DOI: 10.5935/1414-8145.20160011

PESQUISA

Atividades socialmente empreendedoras na enfermagem: Contribuições à saúde/viver saudável

Dirce Stein Backes 1
Silomar Ilha 1
Amanda Schineider Weissheimer 2
Bruna Marta Kleinert Halberstadt 2
Elisa Rucks Megier 2
Raquel Machado 2


1 Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande - RS, Brasil
2 Centro Universitário Franciscano. Santa Maria - RS, Brasil

Recebido em 16/10/2015
Aprovado em 04/01/2016

Autor correspondente:
Silomar Ilha
E-mail: silo_sm@hotmail.com

RESUMO

OBJETIVO: Conhecer as contribuições de atividades socialmente empreendedoras da enfermagem à saúde de mulheres de uma Associação de Materiais Recicláveis.
MÉTODOS: Pesquisa exploratória, descritiva, de abordagem qualitativa, realizada entre julho e dezembro/2014 com 12 mulheres de uma Associação de Materiais Recicláveis, do Rio Grande do Sul. Os dados coletados antes e após as atividades, por meio de entrevista semiestruturada e observação participante, foram submetidos à análise de conteúdo.
RESULTADOS: Identificaram-se as categorias: da invisibilidade à necessidade de estímulo à saúde e viver saudável - processo dinâmico e complexo de superações diárias; da ausência de estímulo à saúde e viver saudável - o desejo de sentir-se cuidada; contribuições das atividades no estímulo do viver saudável - o significado de "sentir-se gente".
CONCLUSÃO: as atividades desenvolvidas por meio do empreendedorismo social com as mulheres mostraram-se potencializadoras de autoestima, saúde/viver saudável na realidade investigada.


Palavras-chave: Participação Comunitária; Educação em Saúde; Pesquisa em Enfermagem; Enfermagem

INTRODUÇÃO

Dentre as diversas profissões ocupadas pelas mulheres, tem-se o trabalho de catadora de materiais, que se caracteriza pelo recolhimento, seleção, transporte e venda de papel, papelão, vidro, plástico e outros materiais reaproveitáveis1,2. Embora a atuação como catador de materiais recicláveis tenha sido regulamentada no ano de 2002, observam-se ainda o preconceito e a estigmatização da sociedade em relação às pessoas que desenvolvem essa atividade, o que denota o preconceito existente nesse trabalho3. Portanto, o trabalho dos catadores, frequentemente, é prejudicial à saúde, pois, além dos riscos físicos a que estão expostos, ainda emergem os agravantes sociais e a falta de regulamentação dos direitos trabalhistas4.

Dessa forma, a atuação dos catadores, frequentemente, está associada a uma autoestima baixa, sistemas de apoio inadequados, barreiras socioeconômicas, entre outras2. Nesse sentido, faz-se necessário que as pessoas que desenvolvem essa prática sejam cuidadas e amparadas em suas necessidades, tanto na dimensão física, quanto psíquica e social3. Para a efetivação desse cuidado multidimensional, torna-se necessário que os profissionais de saúde, em especial, os enfermeiros, que são, normalmente, os profissionais, que permanecem mais tempo junto às pessoas, famílias e comunidades e que assumem a liderança e gerenciamento do cuidado, empreendam metodologias de intervenção que estimulem a saúde e o viver saudável, dentro do contexto de escolhas das pessoas que desenvolvem essa prática.

O viver saudável pode ser entendido, sob esse enfoque, como um processo singular e multidimensional que não pode ser apreendido e definido como algo objetivo, estático ou como um fim em si mesmo. Como um fenômeno complexo, o mesmo requer o reconhecimento das condições do meio em que o ser humano está inserido e no qual experimenta concretamente o seu viver5.

Cabe destacar que, nas diferentes áreas do conhecimento, o enfrentamento dos problemas sociais, bem como os da saúde, esteve frequentemente, associado à lógica tradicional assistencialista6. Essa forma de intervir na realidade, dificilmente leva em conta o contexto e as diferentes formas de se manter e viver com/sem saúde. Tal modelo, regido por princípios paternalistas e pouco flexíveis, vem perdendo força para novas abordagens de intervenção, nas quais se privilegiam processos interativos e participativos que potencializam o viver saudável.

Dentre as novas abordagens de intervenção se destaca o empreendedorismo social que, a partir de uma compreensão sistêmica da realidade social, é capaz de mobilizar recursos e competências na direção de soluções criativas, inovadoras e comprometidas com as questões sociais e de saúde da população7. O empreendedorismo social da enfermagem pode ser caracterizado, com base nestas novas abordagens de intervenção, pela atitude de promover a saúde e o viver saudável das pessoas, famílias e comunidades por meio de processos interativos e associativos, com vistas à emancipação como protagonistas de sua própria história8.

Dessa forma, a atuação do enfermeiro não pode se reduzir ao desenvolvimento de competências técnico-científicas pontuais. Além dessas competências, o profissional precisa estar voltado para o desenvolvimento de potencialidades interativas e integradoras em múltiplos e vários contextos sociais e de saúde9, como, por exemplo, em comunidades, associações e outros cenários.

Promover a saúde e/ou o viver saudável por meio de atividades, socialmente, empreendedoras requer, com base no exposto, além de renovadas metodologias de intervenção, a inserção do enfermeiro nos diferentes contextos sociais e de saúde. É preciso que o mesmo conheça, na prática, as vivências de ordem e desordem dos indivíduos e comunidades, nesse caso, mais especificamente, das mulheres da Associação de Materiais Recicláveis e, que, a partir destas, estabeleça um diálogo aberto com os diferentes saberes, no sentido de agregar e desenvolver conhecimentos coerentes com cada realidade.

A abordagem do enfermeiro com foco em práticas socialmente empreendedoras possui maior potencial de emancipar os diferentes atores sociais para o desempenho participativo e responsável na sociedade. Essa abordagem, fundamentada em processos dialógicos entre o conhecimento técnico-científico e o saber popular, permite, gradativamente, novos olhares e novas formas de interlocução comunitária, possibilitadas por abordagens participativas e emancipatórias que estimulem o processo de educação popular em saúde10,11.

Para ampliar e fortalecer esse processo, foi criada pelo Ministério da Saúde, no ano de 2013, a Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) - a PNEPSSUS. A mesma reafirma, em seu esboço, o compromisso com a universalidade, a equidade, a integralidade e a efetiva participação popular no SUS, ao propor práticas político-pedagógicas que transcendem as ações pontuais e assistencialistas, tradicionalmente empregadas na saúde. Reafirma, em última análise, o diálogo entre os diversos saberes e setores, valorizando o saber popular, a ancestralidade, o incentivo à produção individual e coletiva de conhecimentos e a inserção destes no SUS12.

Dessa forma, torna-se importante o investimento em atividades que promovam a saúde da população em diversos cenários, por meio do fortalecimento da PNPPSSUS, justificando a necessidade e relevância deste estudo, que busca contribuir com a saúde/viver saudável de mulheres catadoras de materiais recicláveis por meio de ações socialmente empreendedoras da enfermagem. Justifica-se, ainda, por não ter sido encontrado nenhum estudo realizado com esse foco e utilizando-se do referencial do empreendedorismo social da enfermagem, fato que demonstra o seu ineditismo e contributo para a saúde das mulheres e para o fortalecimento da enfermagem como ciência e profissão.

Com base no exposto, questiona-se: como as atividades socialmente empreendedoras desenvolvidas por enfermeiros sob o referencial do empreendedorismo social contribuem à saúde e ao viver saudável de mulheres catadoras de materiais recicláveis? Assim, no intuito de contribuir com a PNEPSSUS, o presente estudo tem por objetivo conhecer as contribuições das atividades socialmente empreendedoras da enfermagem à saúde e ao viver saudável de mulheres de uma Associação de Materiais Recicláveis.

MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva, de caráter qualitativo, desenvolvida com mulheres catadoras de materiais de uma Associação de Materiais Recicláveis, localizada na região central do estado do Rio Grande do Sul. Essa associação existe desde o ano de 2009, com objetivo de oportunizar trabalho a um grupo de cerca de 15 mulheres, que por meio da reciclagem, garantem a subsistência de suas famílias. Estabeleceram-se como critérios de inclusão dos participantes do estudo: ser mulher catadora de materiais recicláveis participante da associação descrita anteriormente e atuar no serviço há pelo menos um mês. Como critérios de exclusão: não estar trabalhando na associação no dia e horários agendados para a coleta de dados. Atenderam aos critérios de inclusão, formando o corpus deste estudo, 12 mulheres.

Os dados foram coletados antes e após as atividades socialmente empreendedoras desenvolvidas no período de julho e dezembro de 2014, por meio da observação participante e entrevista semiestruturada, contemplando questões abertas. Inicialmente, as participantes formam questionadas acerca da percepção sobre o significado de saúde e viver saudável na dimensão pessoal e coletiva; a seguir, sobre as atividades que almejavam que fossem planejadas pelos acadêmicos de enfermagem, para contribuir com a sua saúde e viver saudável, dentro do que haviam conceituado no questionamento anterior.

A partir das informações coletadas e discutidas entre todos os participantes, foram realizadas atividades socialmente empreendedoras, tais como: dia de beleza, dia de princesa, encontro de amigos e outras, realizadas de forma processual e sistematizada, em dias e horários previamente agendados, por uma docente enfermeira e por estudantes do curso de enfermagem, com o objetivo de intervir na autoestima das mulheres e lhes garantir maior visibilidade e valorização social.

O dia de beleza aconteceu no mês de setembro e foi organizado e dinamizado em seis horas, a partir de diferentes atividades interativas e lúdicas. Enquanto um grupo de estudantes, com o auxilio de profissionais competentes na área, cortavam, pintavam e faziam escova nos cabelos, outro grupo cuidava da beleza estética da face, bem como das mãos e dos pés, e, ainda, um terceiro grupo descontraía o ambiente com músicas, danças e outras atividades interativas e atraentes. Ao final do processo, as integrantes foram convidadas a participar de um animado desfile, no qual foi escolhida a mais bela associada, bem como as duas associadas mais simpáticas do dia.

O encontro entre amigos foi realizado no mês de outubro por ocasião do dia das crianças, com as mulheres em companhia dos seus filhos, considerando que todas tinham filhos menores de idade. Esse encontro foi dinamizado em um turno e motivado com brincadeiras, danças típicas e descontraídas, bem como comidas e bebidas para as mulheres e crianças. Já o dia de princesa foi oportunizado às integrantes, no mês de dezembro, com o propósito de confraternizar o Natal e as conquistas do ano. Para esse dia, considerado surpresa, foi organizada uma programação especial, a qual contou com a parceria de várias empresas locais.

Ainda trabalhando em meio ao "lixo", as mulheres foram surpreendidas com a chegada de um micro-ônibus, que as buscou para um passeio estratégico na cidade. Assim, as mesmas se deslocaram, ainda com o avental de trabalho, para um instituto de beleza, onde os colaboradores, previamente comunicados, já as aguardavam. Além da estética geral, o corte, a escova e/ou pintura de cabelos, as integrantes também foram presenteadas com uma roupa de festa e calçados combinados, a rigor, também doados por uma empresa. Após, as mesmas foram convidadas para um passeio turístico no centro da cidade onde prestigiaram o Natal Luz e, por fim, a visita em um dos principais shoppings da cidade.

Após as atividades socialmente empreendedoras, as entrevistas foram retomadas com as mulheres, no intuito de avaliar a aplicabilidade e contributo das mesmas para o estímulo à saúde e viver saudável na dimensão pessoal e coletiva.

Os dados coletados foram organizados e após analisados com base na análise de conteúdo, que consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência acrescentem perspectivas significativas ao objeto de estudo13. Na primeira etapa, denominada de pré-análise, foi realizada uma leitura exaustiva dos dados, seguida da organização do material e formulação de hipóteses. A seguir, fez-se a exploração do material, ou seja, codificaram-se os dados brutos. Na terceira e última etapa, os dados foram interpretados e delimitados em eixos temáticos pela compreensão dos significados estabelecidos13.

Consideraram-se os preceitos éticos e legais que envolvem a pesquisa com seres humanos, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde14. Para manter o anonimato, as participantes foram identificadas com a letra "M" (Mulher), seguida por um algarismo arábico, correspondente à ordem de realização das entrevistas (M1, M2... M12). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o nº 493/2013.

RESULTADOS

As 12 mulheres da Associação que participaram do estudo possuíam idade entre 22 e 56 anos, eram casadas e tinham de dois a oito filhos. Atuavam nesse espaço de um a seis anos. A partir de uma lida diária de oito horas de trabalho, organizada de forma autônoma, cada mulher garantia um salário mensal de cerca de R$ 300,00, insuficiente, na maioria das vezes, para suprir as despesas e as necessidades familiares.

O método adotado possibilitou gerar construtos teóricos que conduziram à delimitação de uma categoria central: atividades socialmente empreendedoras na enfermagem: contribuições à saúde/viver saudável. E três subcategorias: da invisibilidade à necessidade de estímulo à saúde e viver saudável - processo dinâmico e complexo de superações diárias; da ausência de estímulo à saúde e viver saudável - o desejo de sentir-se cuidada; contribuições das atividades no estímulo do viver saudável - o significado de "sentir-se gente". A Figura 1 apresenta, de forma esquemática, o processo de integração da categoria central às subcategorias.

Figura 1. Integração da categoria central e subcategorias.

Da invisibilidade à necessidade de estímulo à saúde e viver saudável - processo dinâmico e complexo de superações diárias

Ao serem questionadas sobre o significado de saúde, antes das intervenções empreendedoras propostas, as mulheres teceram comentários de que a sua saúde, tanto individual quanto coletiva, se encontrava fragilizada por vários motivos, os quais foram observados e compreendidos no decorrer do processo. Antes mesmo de conceituarem saúde, referiram que se sentiam desanimadas e pouco motivadas para continuarem o trabalho diário. Relataram que o seu trabalho não estava sendo valorizado e que não visualizavam o mínimo interesse, por parte dos órgãos públicos, em apoiá-las na continuidade do processo. Na fala de uma participante, mais especificamente, esse desabafo ficou bastante evidente:

Ninguém se interessa pela gente. Ninguém mais olha para a gente. Estamos cansadas dos 300 reais mensais que ganhamos aqui com a venda do lixo, precisamos pagar luz e água. Para nós sobra pouco. Estou com as minhas costas acabadas e muito doídas [...] mal consigo caminhar, mas preciso me arrastar, por que tem colegas que estão piores do que eu. Muitas vezes, tenho vontade de desistir deste trabalho, mas aí eu penso nas colegas e no trabalho, que é muito importante para a sociedade. Imagina, onde estaria todo este lixo? Ele estaria nas ruas, nos centros, provocando alagamentos e outros estragos! (M3)

O que falar de saúde? O nosso trabalho é muito pesado e desvalorizado. Muitas vezes desanimamos, mas logo lembramos que temos uma família para sustentar. Este trabalho deveria ser mais reconhecido e valorizado pelas autoridades e também a comunidade[...] (M8)

As mulheres reconheceram que a sua função de recicladoras é importante para a limpeza da cidade e a sustentabilidade do ambiente. Tal motivo ainda as animava a superar a dor nas costas, o descrédito e desinteresse por parte dos órgãos públicos, bem como a desvalorização do trabalho pela sociedade, em geral.

Da ausência de estímulo à saúde e viver saudável - o desejo de sentir-se cuidada

Ao serem questionadas sobre as atividades que almejavam receber dos estudantes de enfermagem, no sentido de contribuir na promoção da saúde e para o viver saudável, as mulheres destacaram:

Nós queremos um dia de cuidado só para nós. Nós trabalhamos no lixo, mas não somos lixo. Queremos nos sentir cuidadas, arrumadas e bonitas para chegar em casa e dizer para os nossos filhos: eu também sou gente! Queremos um dia só para nós, um dia de beleza, de princesa. (M7)

Queremos um dia só para nós. Queremos ser cuidadas, porque não temos este tempo para nós. É o trabalho aqui, é na lida da casa... Não sobra tempo para nós. Só pensamos na família, o seu sustento, mesmo sabendo que este tipo de trabalho não é valorizado. (M10)

Com base na observação participante e nos relatos individuais das mulheres, pode-se perceber que a saúde/ausência da mesma estava diretamente relacionada ao descuidado, ao descrédito de seu trabalho e, principalmente, à invisibilidade e falta de reconhecimento social. O envolvimento diário com o trabalho e as lidas da casa restringe o tempo necessário para o autocuidado, essencial para a saúde e o viver saudável.

Contribuições das atividades no estímulo do viver saudável - o significado de "sentir-se gente"

Ao proceder novamente às entrevistas com as mesmas questões utilizadas anteriormente, porém, após as intervenções socialmente empreendedoras realizadas pelos acadêmicos de enfermagem com as mulheres catadoras de materiais de uma Associação de Materiais Recicláveis, evidenciou-se que as atividades estimularam as mulheres para o viver saudável e a melhoria da autoestima:

Nossa! Foi um dia muito diferente. Foi o melhor dia que já tive na minha vida! (M1)

Nunca me senti tão bonita! Quero que tirem uma foto de mim para eu mandar para a minha família, em Recife. Quero que eles vejam como estou bonita. (M4)

Me sinto gente [...] eu estava perdida, fora de mim [...] (M7)

Não sei o que dizer [...] estou emocionada de tão feliz que me sinto. (M9)

Vocês conseguiram transformar o nosso dia. Vou chegar em casa muito mais feliz [...] me sinto outra pessoa. (M11)

Visivelmente emocionadas diante do que haviam vivenciado, ainda restaram os seguintes depoimentos:

Simplesmente estou sem palavras [...] vocês conseguiram me transformar em outra pessoa. Me senti gente [...] sei que posso continuar sonhando e conquistando novas coisas. (M5)

Sou outra pessoa, me sinto feliz por dentro e por fora. Não sei explicar o que se passa dentro de mim. (M6)

Foi um dia muito especial. Nunca imaginei que alguém pudesse fazer isto por mim. (M10)

Este dia vai marcar a minha vida. Não sei como agradecer a todas as pessoas que me ajudaram. (M12)

Além do encontro e da confraternização, o momento possibilitou intenso convívio familiar e a possibilidade de oferecerem algo diferente para as crianças, conforme expresso por umas das mães, integrante do grupo:

Estou muito feliz. Vocês conseguiram fazer algo diferente para as crianças, para os nossos filhos. A gente nunca teve tempo e nem mesmo condições financeiras de fazer isto para as crianças. Vocês fizeram isto por elas e, principalmente, por nós, mães [...] (M2)

O viver saudável, com base nas vivências e relatos das participantes, significa sentir-se digna humanamente e reconhecida socialmente como profissional. Significa, em outras palavras, "sentir-se gente" e não "lixo", diante dos olhos da sociedade. Saúde e viver saudável, conforme observado e expresso não se reduz a fórmulas científicas prontas, mas se traduz no dinamismo e na capacidade de superação das adversidades do dia a dia pela valorização e o reconhecimento pessoal, profissional e social.

DISCUSSÃO

Na lógica do empreendedorismo social, a saúde pode/deve ser concebida como sistema dinâmico, singular e auto-organizador, interligado aos diferentes sistemas sociais que visam promover o viver saudável das pessoas, famílias e comunidades, a partir de uma perspectiva socio-eco-sistêmica5.

Observa-se que a saúde das mulheres participantes da presente pesquisa estava diretamente relacionada ao descrédito de seu trabalho e, principalmente, à invisibilidade e falta de reconhecimento social, pois as mesmas sentiam-se desanimadas e pouco motivadas para continuarem o trabalho diário antes da realização das atividades socialmente empreendedoras da enfermagem. Esse dado se assemelha ao de um estudo realizado em Fortaleza/Ceará (CE) com homens e mulheres catadores de materiais recicláveis, onde todos os entrevistados manifestaram que seu trabalho era precário, socialmente desvalorizado, estigmatizado e sem futuro2.

Tal invisibilidade social leva muitas pessoas catadoras de materiais recicláveis a pensarem em desistir deste trabalho, o que não se concretiza quando elas refletem sobre a importância do mesmo para a sociedade. As mulheres reconheceram que a sua atuação é fundamental para a sustentabilidade e, caso não o fizessem, o lixo produzido pela sociedade, possivelmente, estaria nas ruas, nos centros, provocando alagamentos e outros estragos. Reforçando esses resultados, evidencia-se um estudo desenvolvido por pesquisadores da cidade de São Paulo (SP) que descreveram os catadores como agentes ambientais, referindo-se a eles como "figuras (vivas) da representação da preservação da natureza"1.

Outro estudo realizado em SP com objetivo de destacar o trabalho dos catadores, como essencial para garantir o reaproveitamento dos materiais que compõem os resíduos sólidos urbanos, descreveu que as pessoas, que atuam como catadores de materiais recicláveis, são consideradas invisíveis para grande parte da sociedade15. A atividade desenvolvida por essas pessoas torna-se estigmatizada, dentre outros fatores, pelo fato que seu trabalho se desenvolve com um material descartado e, portanto, do qual as pessoas querem se livrar16.

Para as participantes deste estudo, viver saudável significa sentir-se humanamente acolhida, respeitada e reconhecida socialmente como profissional. Em estudo realizado em uma cidade do interior do RS, alguns usuários de saúde descreveram o viver saudável associado às possibilidades interativas e associativas. Outros salientaram a importância do estado de bem-estar consigo mesmo e com a sociedade, a importância das relações favoráveis, e do viver em harmonia com a família6, dados que vêm ao encontro dos resultados da presente pesquisa, que possibilitou intenso convívio familiar e oferecerem algo diferente para os filhos, ainda crianças.

Para tanto, é preciso reconhecer que no processo de viver saudável, além dos componentes físicos e biológicos, estão presentes também elementos de ordem social e cultural, bem como aqueles de natureza subjetiva relacionados ao modo como cada pessoa, em sua singularidade, processa os diferentes movimentos/eventos do dia a dia5.

Ao retomar as entrevistas, após as intervenções socialmente empreendedoras, as mulheres referiram estarem emocionadas, felizes e sentindo-se bonitas, pois foram estimuladas à melhora da autoestima, o que demonstra o contributo das atividades na promoção da saúde e no viver saudável das mesmas. Dessa forma, evidencia-se a importância do desenvolvimento de atividades que promovam a saúde por meio de práticas socialmente empreendedoras na enfermagem. Faz-se necessário que o enfermeiro seja um mediador do processo de viver saudável e que valorize as vivências singulares de cada pessoa, família ou comunidade.

Nesse contexto, os profissionais devem intervir de forma empreendedora na realidade de pessoas que se encontram em situações sociais de vulnerabilidade6. A esse respeito, um estudo realizado com profissionais de diferentes áreas da saúde identificou que a enfermagem tem se destacado e diferenciado das demais áreas de conhecimento, pelo desenvolvimento de práticas interativas e integradoras de cuidado, as quais vêm adquirindo uma repercussão cada vez maior, tanto na educação e promoção da saúde, quanto no fomento de políticas voltadas para o bem-estar social das famílias e comunidades9.

Observa-se, portanto, a necessidade do profissional estabelecer o diálogo entre o cuidado formal e o informal, com vistas a ampliar as possibilidades interativas pela potencialização dos recursos dos próprios atores sociais e, sobretudo, pela negociação contínua de ações estratégicas de cuidado, capazes de ampliar a rede de interações com os diferentes atores e setores sociais. Potencializando esse processo, encontra-se o empreendedorismo social, que tem se apresentado como uma nova tendência organizacional, capaz de instigar novas tecnologias e ações de cuidado/saúde, no sentido de atingir um maior número de pessoas, com maior efetividade/resolutividade e com menor custo17.

Apresenta-se, em suma, um novo modelo de desenvolvimento humano, social e sustentável, que requer por parte dos profissionais da saúde uma atitude inovadora e socialmente responsável, orientada para as reais necessidades dos diferentes atores sociais, mais, especificamente, dos grupos vulneráveis17,18.

CONCLUSÃO

Considera-se satisfatória a realização deste estudo, pois foi possível identificar as contribuições das atividades socialmente empreendedoras da enfermagem à saúde e ao viver saudável, desenvolvidas com mulheres de uma Associação de Materiais Recicláveis. Destacam-se, neste processo, o resgate da autoestima, a possibilidade de sentir-se "gente", dignas e merecedoras de viverem em sociedade.

Apesar de trabalharem com lixo, as mulheres não se sentiam e não queriam ser consideradas como "lixo social". Compreendiam que a sua função de catadora de materiais recicláveis vai muito além de uma prática pontual ou assistencialista. Reconheciam que o seu modo de ser e agir contribui significativamente para a limpeza da cidade, consequentemente para um viver mais saudável de seus habitantes, e para a sustentabilidade ambiental.

Algumas fragilidades permearam a construção desta pesquisa, entre elas, a escassez de estudos na temática, utilizando o referencial do empreendedorismo social. Como aspectos favoráveis se destacam a receptividade das mulheres e a atuação das empresas apoiadoras. Esses fatores contribuíram para efetivação desta pesquisa, que apresenta características que a tornam contributiva para o (re)pensar das práticas dos profissionais de enfermagem/saúde, reforçando a importância do desenvolvimento de atividades socialmente empreendedoras.

A saúde e o viver saudável não se constituem em eventos estáticos e normativos. Traduzem-se em processos dinâmicos, interativos e associativos que vão além dos elementos de causa-efeito preconizados pelo tradicional conceito de saúde/doença. As práticas socialmente empreendedoras, sob esse enfoque, se constituem em estratégias proativas, capazes de emancipar os indivíduos como protagonistas de sua própria história.

Acredita-se que o assunto abordado possa gerar impacto nas opiniões dos profissionais de saúde e da sociedade, pois demonstra a contribuição efetiva no que concerne ao resgate da autoestima, o que contribui à saúde e ao viver saudável. Espera-se que estes dados venham colaborar com a ciência da enfermagem/saúde no que concerne ao cuidado de forma ampliada a pessoas em condições de vulnerabilidade social, por meio de referenciais que valorizem o potencial do ser humano.

Este assunto não se esgota neste estudo, visto que novos olhares poderão advir, ampliando as percepções e discussões. Considera-se de suma importância que novas pesquisas sejam realizadas acerca da contribuição de atividades socialmente empreendedoras na enfermagem/saúde com pessoas expostas à vulnerabilidade social em diferentes contextos.

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