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CAPES

Volume 18, Número 2, Abr/Jun - 2014



DOI: 10.5935/1414-8145.20140042

PESQUISA

Pneumonia associada à ventilação mecânica: discursos de profissionais acerca da prevenção

Sabrina Guterres da Silva 1
Eliane Regina Pereira do Nascimento 1
Raquel Kuerten de Salles 1


1 Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis - SC, Brasil

Recebido em 23/01/2013
Reapresentado em 26/08/2013
Aprovado em 17/10/2013

Autor correspondente:
Sabrina Guterres da Silva
E-mail: sabrinaguterres@gmail.com

RESUMO

Objetivou-se identificar os cuidados que os profissionais de enfermagem e fisioterapia de uma Unidade de Terapia Intensiva conhecem e consideram importantes para prevenção da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV).
MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa descritiva de natureza qualitativa. Realizou-se entrevista semiestruturada de maio a setembro de 2011, com 25 profissionais de um hospital público de Santa Catarina. Para o tratamento dos dados utilizou-se o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
RESULTADOS: Os relatos deram origem a quatro discursos relacionados à prevenção da PAV que tiveram como ideias centrais: higiene oral e das mãos; a prevenção da broncoaspiração; cuidados com a aspiração das secreções e circuito ventilatório, e avaliação diária da possibilidade de extubação.
CONCLUSÃO: A análise dos DSC sugere que os profissionais têmum bom conhecimento teórico acerca de medidas preventivas da PAV; contudo, revela o desafio para implementação de alguns cuidados na rotina assistencial.


Palavras-chave: Terapia intensiva; Pneumonia associada à ventilação mecânica; Infecção hospitalar; Cuidados de enfermagem.

INTRODUÇÃO

A intubação endotraqueal e a ventilação mecânica (VM) são medidas terapêuticas muito utilizadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e podem salvar a vida de doentes críticos. Entretanto, essas intervenções também podem ser deletérias aos pacientes, sendo a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) uma das complicações mais comuns1.

Um estudo realizado recentemente apontou a PAV como uma das infecções relacionada à assistência à saúde (IRAS) mais incidente nas Unidades de Terapia Intensiva, com taxas que podem variar de 9% a 67% de todos os pacientes submetidos à ventilação mecânica2. Além de prolongar o tempo de VM e aumentar os dias de internação em UTI, a sua ocorrência implica custos ao tratamento que podem chegar a ? 31.000 e mortalidade superior a 50% dos casos1,2.

Diante desse panorama, é fundamental que ações de prevenção da PAV sejam prioritárias nas instituições de saúde, a fim de promover segurança aos pacientes que necessitam de assistência ventilatória invasiva durante sua internação em UTI.

Nesse ínterim, torna-se elementar a identificação dos principais fatores de risco para PAV, os quais são descritos na literatura como modificáveis e não modificáveis. Os fatores não modificáveis incluem idade, escore de gravidade, doenças neurológicas, traumas e cirurgias. Já os fatores modificáveis referem-se a intervenções que incluem vigilância microbiológica periódica, instituição de protocolos de prevenção, redução de prescrições inadequadas de antimicrobianos, entre outras3. Pondera-se então, que para prevenir a PAV, deve-se intervir nos fatores de risco modificáveis, a partir de condutas específicas e com eficácia comprovada.

Os profissionais de enfermagem, por manterem contato direto e ininterrupto com os pacientes, desempenham importante papel no desenvolvimento e aplicação de programas de prevenção de IRAS, incluindo a PAV. Outros profissionais da equipe, como os fisioterapeutas, também podem contribuir para prevenção desse evento adverso. Contudo, para que medidas eficazes sejam adotadas, é primordial que esses profissionais tenham conhecimentos específicos relacionados aos cuidados de prevenção.

A partir dessa assertiva, questionou-se: Quais cuidados de prevenção da PAV são conhecidos e relatados como importantes pelos profissionais de enfermagem e fisioterapia de uma UTI?

Para responder a esse questionamento traçou-se como objetivo deste estudo identificar os cuidados que profissionais de enfermagem e fisioterapia atuantes em uma UTI conhecem e consideram importantes para prevenir a PAV.

A identificação dos cuidados de prevenção da PAV relatados pelos profissionais de enfermagem e fisioterapia torna-se relevante, pois permite aferir tanto o conhecimento da equipe acerca da temática quanto a presença de possíveis lacunas, que poderão ser trabalhadas em espaços educativos, contribuindo assim para socialização e fortalecimento de ações de prevenção.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa descritiva de natureza qualitativa, realizada com profissionais de enfermagem e fisioterapia atuantes na UTI geral de um hospital público de Santa Catarina que dispõe de 14 leitos para internação de adultos. O quadro de profissionais de enfermagem e fisioterapia desta unidade é composto por: 1 chefia de enfermagem, 17 enfermeiros assistenciais, 1 enfermeira residente (R2), 57 técnicos de enfermagem e 6 fisioterapeutas.

Participaram deste estudo 25 profissionais, dos quais 13 eram técnicos de enfermagem, 8 enfermeiros e 4 fisioterapeutas. Estabeleceram-se como critérios de inclusão: ser profissional de enfermagem e fisioterapia com no mínimo seis meses de experiência em UTI.

Para determinar o número de participantes, utilizou-se o princípio de saturação de dados. O fechamento amostral por saturação de dados ocorre ao ponto em que novas informações não sejam mais observadas e se alcance a redundância4.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina sob Protocolo nº 1922/2011. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A coleta das informações ocorreu no período de maio a setembro de 2011, por meio de entrevista semiestruturada, a partir da seguinte questão norteadora: Quais cuidados você conhece e considera importante para a prevenção da pneumonia associada à ventilação mecânica?

As entrevistas foram realizadas individualmente, na sala de estudos da UTI, e gravadas em formato MP3, sendo posteriormente transcritas na íntegra. Visando preservar o anonimato dos participantes, adotou-se, para sua identificação, o uso da inicial "E" para enfermeiro, "T" para técnico de enfermagem e "F" para fisioterapeuta, atribuindo-se números de acordo com a sequência das entrevistas.

Para análise dos dados utilizou-se o processo metodológico do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC)5, o qual corresponde a um discurso síntese elaborado com recortes dos discursos individuais de sentido semelhante, utilizando-se a primeira pessoa do singular. Nesse método, quatro figuras metodológicas são propostas: as Expressões Chaves (ECHs), as Ideias Centrais (ICs), a Ancoragem (AC) e o DSC em si5.

As ECHs são trechos do discurso que devem ser destacados pelo pesquisador, e que revelam a essência do conteúdo do discurso ou a teoria subjacente.

As ICs são nomes ou expressões linguísticas que revelam, da maneira mais sintética e precisa possível, o(s) sentido(s) presentes em cada uma das respostas analisadas e de cada conjunto homogêneo de ECHs, que vai dar origem ao DSC.

As AC são afirmações genéricas usadas pelos depoentes para "enquadrar" situações particulares, professar teorias ou ideologias. Para que haja uma AC no depoimento, é preciso encontrar, em seu corpo, marcas discursivas explícitas dela.

O DSC é a agregação ou soma não matemática dos depoimentos, na qual cada uma das partes se reconheça como constituinte. É um discurso síntese composto pela "colagem" das ECHs que têm a mesma IC ou AC5.

O processo de organização dos dados de acordo com a metodologia do DSC deu-se em quatro momentos: inicialmente realizou-se a leitura cuidadosa da transcrição das entrevistas e agrupamento dos relatos a partir dos assuntos expressados pelos participantes; em seguida destacou-se em itálico as ECHs dos agrupamentos das respostas/discursos individuais relacionadas a cada assunto; no terceiro momento, as ECHs de assuntos semelhantes foram reunidas e identificou-se a IC extraída de cada conjunto das ECHs; o quarto e último momento consistiu da construção do DSC. Essa construção constituiu-se das ECHs de mesmo sentido, e cada DSC compreendeu uma IC.

Não utilizou-se a AC no presente estudo, pois essa figura metodológica não foi encontrada nos depoimentos dos profissionais.

RESULTADOS

Com relação às características dos participantes, observou-se predomínio do sexo feminino, pois, dos 25 profissionais, 19 eram mulheres. A idade dos trabalhadores e tempo de serviço em UTI tiveram uma média de 36 e 6,4 anos, respectivamente.

No que tange à formação acadêmica, dos 13 profissionais de nível médio, cinco eram graduados em enfermagem, três eram acadêmicos de enfermagem e dois eram alunos de mestrado. Dos oito enfermeiros, sete tinham pós-graduação lato sensu na área de terapia intensiva, dois dos quais cursavam pós-graduação stricto sensu. Com relação aos quatro fisioterapeutas, três eram mestres e especialistas em UTI e uma era doutoranda.

Observa-se um interesse pela qualificação profissional, sendo que a maioria busca aperfeiçoamento em cursos de graduação e pós-graduação. Cabe salientar que na própria instituição é oportunizado o ingresso no curso de mestrado profissional e incentivada a participação em outras modalidades de ensino.

Quanto aos depoimentos dos profissionais, esses foram organizados em quatro IC: higiene das mãos e oral na prevenção da PAV; prevenção da broncoaspiração; cuidados com a aspiração endotraqueal e circuito ventilatório e avaliação diária da possibilidade de extubação. A primeira IC foi identificada nas ECHs de 22 participantes, a segunda em 18, a terceira em 19 e a quarta em quatro discursos individuais. Cada IC resultou em um DSC conforme ilustrado a seguir:

IC1: Higiene das mãos e oral na prevenção da PAV

DSC1: A principal medida para evitar infecções é a lavagem das mãos. Esse é um cuidado básico, mas a gente vê com frequência pessoas manuseando os pacientes sem lavar as mãos. Tem gente que acha que o uso da luva substitui a lavação das mãos. Mas não substitui! Isso é um fator gravíssimo, pois eu não sei o que eles estão trazendo nas mãos. Outro cuidado que também acho imprescindível é a higiene oral dos pacientes, pois uma boca suja pode evoluir para uma infecção. A higiene deve ser bem feita explorando toda a cavidade oral, língua e os dentes, para diminuir o risco de colonização de bactérias. Tem se preconizado para profilaxia o gluconato de clorexidina 0,12% que a gente já usa no hospital. Outra questão é com relação ao cuff, quando se vai fazer a higiene oral, o ideal é aspirar a cavidade oral, verificar se o cuff está insuflado o suficiente para fazer a vedação, e depois fazer a higiene oral, sempre nessa ordem, para evitar migração de secreções contaminadas para o pulmão. Eu acho que essa relação entre a higiene oral e a pneumonia associada à ventilação mecânica deve ser bem esclarecida e treinada, pois esse cuidado é por vezes banalizado. Um monte de gente não sabe, acha que é só para limpar a boca. É claro que dá conforto para o paciente, mas, além disso, previne a pneumonia (E1, E2, E3, E4, E6, E7, E8, T1, T2, T3, T4, T5, T6, T7, T9, T10, T11, T12, T13, F1, F2, F4).

IC2: A prevenção da broncoaspiração

DSC2: Grande parte de nossos pacientes recebem dieta por sonda, e correm risco de broncoaspirar conteúdo gástrico e desenvolver uma pneumonia. Por isso, é importante manter a cabeceira elevada entre 30º-45º se não houver contraindicação, pois, além de prevenir a broncoaspiração esse cuidado, favorece a expansibilidade torácica, expansão alveolar e fortalecimento muscular. Faz a diferença uma cabeceira elevada! Mas a gente vê na nossa prática que não se tem esse cuidado, pois existe a justificativa de que o paciente escorrega na cama e é pesado para subir. Essa questão da cabeceira elevada deve ser melhor trabalhada. Em algumas ocasiões a gente vai ter que baixar a cabeceira para facilitar a mobilização do paciente, então nesses momentos eu acho que a dieta deveria ser pausada, pois o paciente pode acabar broncoaspirando. Devemos tomar cuidado também com as sondas nasoenterais, eu sei que tem alguma coisa relativa à sondagem nasal e aumento da sinusite e pneumonia. A gente poderia estudar se seria melhor passar sondas por via oral. Outra coisa muito importante é o controle efetivo da pressão do cuff. Se mantido em uma pressão adequada, o cuff faz uma barreira impedindo que secreções como saliva ou dieta desçam para o pulmão. Por isso tem que manter a pressão entre 20 a 30 cm H2O, pois a pressão muito elevada pode lesionar a traqueia e muito baixa pode favorecer escape de ar (E1, E2, E4, E5, E6, E7, E8, T1, T5, T6, T7, T8, T12, T13, F1, F2, F3, F4).

IC3: Cuidados com a aspiração endotraqueal e circuito ventilatório

DSC3: A aspiração das vias aéreas superiores pelo tubo endotraqueal dos pacientes em VM é um cuidado muito importante, não a aspiração feita de rotina, e sim sempre que necessário, com ausculta prévia e evitando instilar soro fisiológico. Tem que ter todo cuidado para não fazer nenhuma contaminação nesse momento. A gente tem usado muito mais o sistema fechado de aspiração, mas li alguns estudos que não mostravam diferença em prevenir a PAV em relação à aspiração aberta. A gente não troca o sistema fechado a cada 24h, mas é avaliado diariamente se não está sujo e se está aspirando adequadamente. O ideal seria usar o tubo com aspiração subglótica contínua, alguns trabalhos recomendam prevenção da PAV, mas ainda não dispomos esse dispositivo. Outra questão importante é com relação ao circuito do ventilador. Não é mais preconizada à troca de rotina como a gente fazia antigamente, agora é indicado só quando está sujo, falhando ou quando o paciente recebe alta. Mas tem que evitar condensação de água nas traqueias, pois se aquela água ficar ali vai fazer uma colonização que pode entrar para o paciente e ocasionar uma PAV (E1, E2, E4, E6, E7, E8, T1, T2, T3, T4, T5, T6, T9, T10, T12, T13, F1, F2, F3).

IC4: Avaliação diária da possibilidade de extubação

DSC4: Eu percebo que os nossos pacientes demoram muito para sair do tubo endotraqueal. Acho que deveríamos fazer um trabalho integrado para prever e antecipar a extubação e evitar a sedação desnecessária, pois quanto antes extubar o paciente menos risco ele terá de desenvolver uma pneumonia associada à ventilação mecânica. Outra questão que eu acho importante é a realização da traqueostomia precoce. Não sei se isso está descrito na literatura, mas acho que esse cuidado também ajuda a prevenir a PAV (E3, E6, T8, T11).

DISCUSSÃO

A higienização das mãos e da cavidade oral é mencionada no DSC1 como medida importante para prevenir a PAV. O cuidado relacionado à higienização das mãos é reconhecido mundialmente quando se trata de prevenção e controle de infecções. Contudo, colocar essa medida em prática consiste em uma tarefa difícil e complexa6.

Conforme a fala dos participantes, a prática da higienização das mãos é um cuidado por vezes negligenciado e subvalorizado por alguns profissionais, sendo tais atitudes "descuidadas" consideradas um fator gravíssimo no que concerne à assistência prestada.

Estudos sobre a temática revelam que realização correta da higienização das mãos continua aquém do esperado e sugerem treinamento dos profissionais de saúde, enfocando a importância e a necessidade da adesão a essa prática aparentemente simples, mas que requer mudanças de hábitos para garantia de sua efetividade7.

Outra questão levantada no DSC1 refere-se ao uso de luvas em detrimento da higiene das mãos. Em consonância com as recomendações descritas na literatura, os profissionais afirmam em seu discurso que o uso de luvas não substitui a higienização das mãos6. As luvas podem contribuir na prevenção da contaminação das mãos e ajudar a reduzir a transmissão de patógenos. Entretanto, elas podem ter microfuros ou perder sua integridade sem que o profissional perceba, possibilitando a contaminação das mãos6.

No que tange a higiene bucal do paciente submetido à VM, sua importância é inquestionável para prevenção da PAV, pois a higienização oral precária ou ausente leva à formação de placa bacteriana e colonização por micro-organismos patogênicos8,9. As evidências acerca desse cuidado mostram que o antisséptico mais indicado para prevenir PAV é o gluconato de clorexidina, devido ao seu grande potencial antibactericida, incluindo germes resistentes3,8,9.

Ainda nesse discurso os profissionais sugerem que a cavidade oral seja aspirada, logo em seguida seja verificada a pressão do cuff e, após, realizada a higiene oral com gluconato de clorexidina 0,12%. Embora essa sequência de cuidados vise à prevenção da broncoaspiração, não há estudos que comprovem sua eficácia.

Independente da técnica adotada para higienização oral dos pacientes em VM, é imprescindível que a equipe esteja preparada para desempenhar esse cuidado. A implementação de um protocolo de higiene bucal associada a um programa de treinamento contínuo dos profissionais é determinante para redução das taxas de PAV, pois a falta de esclarecimento acerca da importância desse cuidado repercute em uma baixa adesão pela equipe de enfermagem9.

Essa questão é mencionada pelos profissionais quando estes sugerem que a equipe seja treinada e esclarecida acerca da importância da higiene oral como cuidado preventivo de PAV, referindo que muitos profissionais associam essa prática apenas ao conforto do paciente.

O DSC 2 revela cuidados relacionados à prevenção da broncoaspiração. Pacientes em terapia intensiva apresentam risco potencial para broncoaspiração de secreções, principalmente se expostos a manipulação de vias aéreas e/ou trato digestivo, incluindo o uso de tubos endotraqueais e sondas gastrointestinais3.

Recomendações para evitar essa complicação estão presentes neste discurso, o qual expõe diversos cuidados cujo objetivo é impedir que secreções contaminadas migrem para os pulmões de pacientes ventilados mecanicamente.

O primeiro aspecto levantado no DSC2 relaciona a administração de dieta por sonda como fator predisponente para a PAV, pelo risco de aspiração do conteúdo gástrico. Cuidados como observar a presença de distensão gástrica e verificar o posicionamento da sonda podem ser adotados para evitar a broncoaspiração3,10.

Além disso, a elevação da cabeceira do leito a 30º-45º, como mencionado pelos participantes é um cuidado altamente recomendado, exceto nos casos em que há alguma contraindicação3,8,10. Essa medida, além de prevenir a broncoaspiração, contribui para uma melhoria no volume corrente ventilatório, e diminui os casos de atelectasia8. Contudo, os relatos dos participantes mostram que existem dificuldades para a manutenção da cabeceira elevada, sugerindo que a importância desse cuidado seja trabalhada com a equipe.

No que tange à sugestão feita pelos profissionais para pausa da dieta nos momentos de baixar a cabeceira, não se encontrou associação direta desse cuidado com a prevenção da PAV, muito embora haja uma forte relação entre a administração de dieta em posição supina (0º) e o risco de broncoaspiração3,10.

Quanto à via de intubação traqueal e/ou sondagem gastrointestinal, em conformidade com o que foi relatado no discurso, estudos recomendam que a via oral seja preferida à nasal, pois a última favorece a ocorrência de sinusite, o que pode culminar com o aumento do risco de PAV3.

Outra questão relevante mencionada é a monitorização da pressão do cuff do tubo endotraqueal. Estudos associam esse cuidado com a prevenção da PAV e recomendam manutenção de pressões entre 20 a 30 cm H2O3,11. Esses valores pressóricos promovem vedação da traqueia ao ponto de prevenir broncoaspirações e, ao mesmo tempo, evitam o comprometimento da perfusão traqueal. A hiperinsuflação do cuff acima de 30 cm H2O pode ocasionar isquemia da mucosa, lesão de cartilagem, estenose e fístula traqueoesofágica11,12.

No DSC 3 são relatados cuidados acerca da aspiração endotraqueal e circuito do ventilador e suas implicações para prevenção da PAV. A aspiração de secreções endotraqueais é um cuidado indispensável em pacientes em VM, pois a presença de uma via área artificial interfere no reflexo de tosse, o que culmina com um acúmulo de secreções que pode prejudicar a ventilação13.

Entretanto, conforme relatado pelos profissionais, o procedimento de aspiração requer avaliação criteriosa de sua necessidade, pois, se realizado com intervalos predeterminados, pode desencadear complicações como hipoxemia, instabilidade cardiovascular, aumento da pressão intracraniana, lesões da mucosa traqueal e infecções13.

Os profissionais sugerem no DSC3 que a ausculta pulmonar preceda a aspiração para certificação da presença de secreções e desaconselham à instilação de solução salina durante o procedimento pelo risco de contaminação.

No que tange à utilização do sistema fechado versus sistema aberto de aspiração para prevenção da PAV, estudos mostram que embora o primeiro reduza os riscos de atelectasia e promova maior segurança para o trabalhador, não há evidências que apontem benefícios em termos de prevenção de infecções quando comparado ao sistema aberto3,10,13,14.

Essa questão aparece quando a coletividade revela utilizar com mais frequência o sistema fechado, embora tenha ciência de que este não apresenta vantagens para prevenção de PAV. É também mencionado o tempo de utilização do sistema fechado, sendo a troca realizada a partir de avaliação diária acerca das condições do cateter, presença de sujidades e capacidade de aspiração, sendo essa prática recomendada na literatura10.

Outro cuidado para prevenção da PAV aludida refere-se à utilização de tubos de aspiração subglótica contínua. Os participantes revelaram nunca ter utilizado esse dispositivo devido à inexistência no serviço, mas consideram que poderia ser uma boa alternativa para prevenir PAV.

Uma revisão sistemática e meta-análise mostrou que o uso de tubos endotraqueais com drenagem de secreção subglótica é eficaz para a prevenção da pneumonia associada à ventilação mecânica e pode estar associado a decréscimo no tempo de utilização de ventilação mecânica e dias de internação em terapia intensiva15.

Com relação aos cuidados com o circuito do ventilador, em concordância com recomendações de outros estudos, os participantes sugerem a conservação das traqueias do respirador livres de água ou condensações e manutenção do circuito durante toda permanência do paciente em VM, sendo indicada troca somente nos casos de falhas, sujidades ou alta da UTI10.

A relação entre o tempo de VM e incidência de PAV foi relatada no DSC4, quando o coletivo sugere que seja realizado um trabalho coeso entre os profissionais que integram a equipe multiprofissional atuante na UTI, a fim de prever e antecipar a extubação dos pacientes, evitando sedações desnecessárias e, assim, diminuindo os riscos para PAV.

Pacientes em VM invasiva frequentemente necessitam de algum tipo de sedação para conforto e otimização do padrão ventilatório. No entanto, a sedação profunda dificulta o desmame ventilatório e pode culminar em maior risco para PAV8,16.

Um estudo publicado recentemente recomenda níveis de sedação leve e interrupção diária da sedação. Essas duas estratégias são seguras e reduzem o tempo de ventilação mecânica, bem como os dias de internação em UTI. Além disso, foi observado que a interrupção diária da sedação está associada a maior sobrevida dos pacientes submetidos à VM16.

Contudo, pacientes com sedação superficial podem apresentar risco para autoextubação, ansiedade, dor, assincronia com o ventilador e dessaturação8. Portanto, a interrupção da sedação e desmame ventilatório devem ser guiados por protocolos bem fundamentados a fim de evitar extubações equivocadas e necessidade de reintubações que representam fator preditor para PAV3,10.

A utilização de ventilação mecânica não invasiva tem sido indicada como parte do desmame e como uma boa estratégia para evitar reintubações. Há, no entanto, questionamentos de que sua utilização pode, na realidade, protelar uma intubação necessária, aumentando a mortalidade3. Assim, a realização do desmame ventilatório e extubação deve ser realizada por profissionais treinados, para que essa prática não traga prejuízos para os pacientes.

Está presente também no DSC4 a realização de traqueostomia precoce para prevenção da PAV, nos casos em que há necessidade de VM prolongada. Entretanto, o momento ideal para realização da traqueostomia ainda é um assunto controverso. Um estudo recente sugere que essa prática pode contribuir para maior conforto do paciente e facilitar o desmame ventilatório, porém a relação com ocorrência da PAV permanece indefinida17.

Diante dos cuidados mencionados nos quatro DSC, observa-se que a maioria apresenta evidências quanto a sua aplicabilidade para prevenção da PAV, o que sugere que os profissionais têm conhecimento acerca da temática. Contudo, está explícito nos discursos o desafio para a implementação de alguns cuidados na rotina assistencial.

Acredita-se que a utilização de práticas educativas pode ser uma ferramenta eficaz para efetivação desses cuidados. Um estudo realizado recentemente mostrou resultados satisfatórios após realização de workshops com a equipe de enfermagem acerca de medidas preventivas da PAV, mostrando maior adesão da equipe aos cuidados após as intervenções18.

CONCLUSÃO

Como medidas preventivas da pneumonia associada à ventilação mecânica, os participantes referiram: a higiene das mãos e oral; a prevenção da broncoaspiração de secreções com a elevação da cabeceira de 30 a 45º, controle da pressão do cuff; cuidados com a aspiração das secreções e circuito ventilatório, aspiração da secreção somente quando necessário, não realização da troca periódica do circuito ventilatório, evitar condensação de água no circuito e avaliar diariamente a possibilidade de extubar o paciente.

A análise dos Discursos do Sujeito Coletivo sugere que os profissionais de enfermagem e fisioterapia têm conhecimento acerca dos cuidados para prevenção da PAV, pois grande parte dos cuidados mencionados dispõe de evidências quanto à sua utilização. Esse fato pode ter associação com a titulação acadêmica dos participantes e com a busca deles por aperfeiçoamento técnico-científico.

Embora tenha sido evidenciado um bom nível de conhecimento teórico, não é possível afirmar que ele seja aplicado em sua totalidade na prática cotidiana dos profissionais. Esse fato configura-se como uma limitação do estudo e remete à necessidade de outra pesquisa que investigue a conformidade entre o discurso e a prática.

Na perspectiva das autoras, os resultados dessa pesquisa podem contribuir para elaboração de diretrizes e protocolos clínicos que visem reduzir as taxas de PAV no contexto estudado e/ou nos que guardarem semelhanças, promovendo, assim, qualidade assistencial e segurança ao paciente submetido à ventilação mecânica.

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