ISSN (on-line): 2177-9465
ISSN (impressa): 1414-8145
Escola Anna Nery Revista de Enfermagem Escola Anna Nery Revista de Enfermagem
COPE
ABEC
BVS
CNPQ
FAPERJ
SCIELO
REDALYC
MCTI
Ministério da Educação
CAPES

Volume 21, Número 2, Abr/Jun - 2017



DOI: 10.5935/1414-8145.20170037

PESQUISA

O lazer em rede social virtual: uma possibilidade de diálogo autêntico

Célia Maria Gomes Labegalini 1
Giselle Fernanda Previato 1
Geisieli Maria Sgrignoli Dias 1
Lígia Carreira 1
André Estevam Jaques 1
Vanessa Denardi Antoniassi Baldissera 1


1 Universidade Estadual de Maringá. Maringá, PR, Brasil

Recebido em 02/11/2016
Aprovado em 25/02/2017

Autor correspondente:
Célia Maria Gomes Labegalini
E-mail: celia-labegalini-@hotmail.com

RESUMO

OBJETIVO: Analisar a construção do diálogo autêntico sobre a temática lazer por meio de uma atividade educativa desenvolvida em grupo social virtual.
MÉTODOS: Pesquisa documental, qualitativa, descritiva e exploratória. Foram analisados cinco registros de discussões desenvolvidas em Círculos de Cultura, realizados em um grupo fechado na mídia virtual Facebook® com onze graduandos em enfermagem. Os dados foram analisados segundo a técnica de análise interpretativa, embasada no referencial da Teoria Dialógica de Freire.
RESULTADOS: Interpretou-se que houve: construção do diálogo educacional para o lazer em campos virtuais; lazer no diálogo entre os pares; diálogo entre alunos e mediadores de saberes sobre o lazer. As atividades educativas estimularam o diálogo autêntico, enfatizando o lazer pessoal, os seus benefícios e a reflexão sobre a prática profissional.
CONCLUSÃO: Grupos sociais realizados em mídia virtual estão próximos do cotidiano acadêmico e podem ter finalidade educativa pautada no diálogo por tornar o processo educativo inovador, ativo e participativo.


Palavras-chave: Enfermagem; Comunicação; Diálogo; Educação; Atividades de Lazer

INTRODUÇÃO

As formas de comunicação, interação e educação se modificaram profundamente nas últimas décadas, sobretudo por meio das tecnologias. Nesse sentido, o uso das redes sociais virtuais e das mídias virtuais ganhou destaque, dentre as quais a mídia virtual Facebook® é uma das mais utilizadas mundialmente, principalmente pelo público jovem.1

Enquanto ambiente social e cultural, o Facebook® é um potencial para ações educativas dialógicas, em razão dos dispositivos e das funcionalidades proporcionados. Além disso, permite um amplo alcance e uma facilidade de acesso por tratar-se de um recurso midiático de interação gratuita.1,2

A dinamicidade e a interatividade da rede social e da mídia virtual qualificam a interação dos participantes, estimuladas pela globalização e pela necessidade humana de viver em conjunto e de comunicar-se. Dessa maneira, as redes sociais virtuais podem e devem ser utilizadas no contexto pedagógico por apresentarem caráter construtivista, estimularem a interação, o diálogo e a construção do conhecimento e por serem popularmente utilizadas pelos estudantes.3-5

Ademais, o uso da rede social e da mídia virtual caracteriza-se como lazer, e este é temática relevante à enfermagem, pelo seu papel na qualidade de vida, na promoção da saúde e no cuidado integral, inerentes às práticas de enfermagem.6,7 Contudo, mostra-se ainda pouco explorado pelas equipes de saúde.6

Para a discussão dessa temática, utilizou-se a Teoria Dialógica de Paulo Freire.8,9 Freire foi um pensador, educador e pesquisador da educação. Seus pressupostos são aplicados em diversas áreas do conhecimento, tais como na área da saúde. Em suas discussões sobre a educação, o diálogo constitui uma temática muito importante e valorizada, pois, para Freire, o processo de ensino-aprendizado só se dá permeado pelo diálogo.8

Nesse contexto dialógico, o pensador não se referiu a qualquer forma de diálogo, e sim ao diálogo autêntico, definido pelo reconhecimento do outro e pelo autorreconhecimento com decisão e compromisso de colaborar na construção do mundo comum e mais humanizado.8,9

Segundo esse referencial, as condições indispensáveis ao diálogo autêntico seriam o amor, a humildade e a fé. De início, o amor, no sentido da amorosidade, representaria doar-se aos semelhantes com o intuito de construírem-se juntos. Em seguida, a humildade seria imprescindível para reconhecer e valorizar conhecimentos distintos. Por fim, a fé no ser humano, na sua capacidade de mudança, de adaptação e, em conjunto, de diálogo, permitiria ultrapassar a consciência ingênua e assumir uma consciência crítica perante o mundo e a realidade que os cercam.8,9

Quanto ao percurso metodológico, Freire defende que o diálogo autêntico acontece em Círculos de Cultura: momentos horizontais de saberes em que há participação, convergência, divergência, ensinamentos e aprendizados em reciprocidade.8,9 No que tange ao diálogo, estimular a comunicação sobre lazer por meio de mídia virtual entre acadêmicos de enfermagem justifica-se pela relevância desse ambiente como estratégia para recriar possibilidades de diálogo autêntico e da temática para a consciência crítica por meio da tecnologia.

Para fortalecer o seu uso no ambiente acadêmico, como ferramenta de aprendizado, o Facebook® foi utilizado em uma estratégia educativa sobre o lazer com graduandos em enfermagem. Nesse contexto, este estudo teve como questão norteadora: Como se construiu o diálogo autêntico sobre lazer em um ambiente virtual? Desse modo, o trabalho objetivou analisar a construção do diálogo autêntico sobre lazer por meio de uma atividade educativa desenvolvida em mídia virtual.

MÉTODOS

Tratou-se de uma pesquisa documental com abordagem qualitativa, descritiva e exploratória.10 Os materiais analisados foram os registros de cinco discussões promovidas por onze acadêmicos, mediados por uma aluna da graduação, uma aluna da pós-graduação e uma professora, todos do Departamento de Enfermagem de uma universidade pública do estado do Paraná, Brasil, durante sete dias do mês de junho do ano de 2014, focando a temática lazer.

Esse tema foi escolhido a partir de um levantamento sistemático de saberes prévios, por meio de questionários, que demonstrou tratar-se de demanda educativa relevante, cercada por ingenuidade em seus conceitos e por superficialidade na relação com a saúde, sobretudo a mental. Embasados no referencial de Freire,8 idealizou-se pautar os diálogos por meio de Círculos de Cultura. Neste estudo, por se desenvolverem de forma não-presencial, por meio de interações em um grupo fechado na mídia virtual Facebook®, foram intitulados Círculos de Cultura Virtuais (CCV).

Todos os participantes dos cinco CCV eram do sexo feminino, com idades entre 18 e 25 anos (média de 19 anos), sendo duas alunas da 1ª série da graduação, cinco da 2ª série e quatro da 3ª série. As discussões promovidas entre as alunas e os mediadores dos CCV foram transcritas para um arquivo do Microsoft Word® versão 2010. A fim de preservar a identidade das participantes, para cada transcrição, foi adotada a denominação que remetia à mídia virtual utilizada. Para isso, as acadêmicas foram denominadas: Feed de notícias, Time line, Grupo, Status, In-Box, Amigos, Postar, Post, Mensagem, Emoticon e Selfie; e os mediadores, denominados Comentar, Curtir e Compartilhar. Os sentimentos e as emoções ilustrados por meio de emoticons foram inseridos no texto, conforme utilizados pelas participantes, visando manter a fidedignidade dos relatos e a expressão das acadêmicas.

Para analisar os dados, foi utilizada a técnica de análise interpretativa,11 almejando desvelar o diálogo autêntico nos círculos de cultura. As interpretações foram elaboradas com base nas informações mais significativas e representativas aos objetivos do estudo e foram interpretadas à luz do referencial da Teoria Dialógica de Paulo Freire,8,9 que explicita o diálogo autêntico, discutindo-as com a literatura atual.

Esse estudo está vinculado à pesquisa docente 'Pesquisa-ação nas demandas educativas no cenário da enfermagem' (Protocolo nº 401/2013- PPG/UEM), cujo parecer do Comitê Permanente de Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá foi favorável à sua realização (CAAE: 12664813.9.0000.0104/nº 375.459 de 05/08/2013). A pesquisa seguiu todos os preceitos éticos da resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Seguindo o referencial de Freire, as análises pautaram-se na identificação do diálogo autêntico que ocorreu no percurso das discussões sobre a temática lazer, as formas de vivê-lo, as dificuldades de exercê-lo no contexto da vida universitária, o conhecimento ingênuo quanto aos seus benefícios, a inexistência da sua inserção nas práticas de enfermagem e a formação de pensamento crítico que concretiza a superação dos saberes, segundo o mesmo referencial. Por não existir conhecimento superior, mas conhecimentos distintos que se completam e se constroem coletivamente pelo diálogo, não interessava apenas o desfecho crítico dos participantes, mas também de todos os envolvidos e do percurso de construção do diálogo.

Dessa maneira, a análise permitiu reconhecer os diálogos registrados nos CCV entre os participantes e entre participantes e mediadores, iniciando pelo planejamento dessa estratégia, também dialógico. Portanto, interpretamos que houve: 1) A Construção do diálogo educacional para o lazer em campos virtuais de interação, evidenciado pelo planejamento e desenvolvimento educativo em CCV; 2) O lazer no diálogo entre os pares, caracterizado pelo diálogo que ocorreu entre os participantes dos CCV; 3) Diálogo entre alunos e mediadores na construção de saberes sobre o lazer, sustentado pela horizontalidade dos saberes entre educador-educando e por meio do diálogo emancipador impulsionado pelos mediadores.

1) A Construção do diálogo educacional para o lazer em campos virtuais de interação

O lazer enquanto cuidado humano é pouco evidente nas práticas de enfermagem brasileiras6 ao contrário de outras culturas, em que isso já está consolidado. A temática, quando incluída na formação, permite ampliar e qualificar o cuidado, por abranger a integralidade, a humanização e a promoção da saúde, além de tratar-se de uma das dimensões biopsicossociais que envolvem o ser humano.6 Essa formação, portanto, rompe o hegemônico cuidar biologicista.

O planejamento da atividade educativa foi elaborado de forma sistematizada, ressaltando o diagnóstico inicial dos saberes dos alunos. O conteúdo do diálogo foi definido a partir das reais necessidades dos participantes, levantadas, a priori, por meio de um formulário autoexplicativo, em que os acadêmicos apontaram seus conhecimentos sobre o lazer, elucidaram seus benefícios e sua prática na vida pessoal e profissional.

Considerar os saberes prévios e delinear as práticas educativas possibilitam atividades voltadas às reais necessidades dos participantes, além de potencializar os seus saberes e de aprimorar as suas fragilidades.12 Essa premissa deve guiar as atividades educativas com vistas ao diálogo autêntico e à emancipação do sujeito e tem a potencialidade de estimulá-los, por calcar-se na amorosidade, no amor às pessoas, em estar e construir juntos.

Os primeiros diálogos versaram sobre ambientação dos participantes quanto à atividade educativa e aos demais integrantes do grupo. O fragmento abaixo trata das orientações iniciais da atividade educativa:

Este grupo tem como objetivo discutir a temática lazer no que tange à formação e atuação do enfermeiro. Instruções: o participante deve realizar todas as atividades propostas no prazo, isso deve ser feito curtindo, comentando e interagindo com os demais integrantes do grupo. Em caso de dúvidas sobre as atividades, comente este post para facilitar nossa visualização e a rapidez na resposta. Estamos à disposição. Lembrem-se de que este é um ambiente de aprendizagem e conhecimento mútuo, por isso fiquem à vontade para expor suas ideias!!! Aguardamos a participação de todos!!! (Curtir)

Desse forma, as orientações iniciais permitiram, além de informar a dinâmica do grupo, ressaltar seu caráter dialógico e participativo. Almejou-se o desenvolvimento de atividades que permitissem um ambiente educacional próximo ao estudante. Para isso, utilizou-se de estratégias como o planejamento prévio, a introdução dos objetivos do grupo, a apresentação pessoal e de desejos/expectativas com as atividades, o que estimulou a criação de um ambiente educativo harmonioso, dialógico e participativo.

As atividades desenvolveram-se com várias abordagens dentro do grupo social virtual, estimulando os alunos a comentarem suas vivências pessoais e profissionais, ilustrarem com fotos, vídeos e links de outros sites de interesse. As questões envolviam níveis de complexidade distintos e progressivos e consideravam as diversas formas de aprendizado - visual, auditiva e cinética. Tais cuidados possibilitaram um ambiente educativo mais acolhedor e voltado aos interesses dos jovens, permitindo que o diálogo entre os membros ocorresse de maneira espontânea a agradável. Estimulou-se o diálogo verdadeiro, construtivo e autêntico.

Os esforços para que as ações fossem claras e compreensíveis, com a escolha de atividades educativas dinâmicas e reflexivas, utilizando imagens, textos e vídeos, colaboraram para a construção da dialogicidade. Por fim, valorizou-se, também, a avaliação do processo educativo como importante dado para qualificar o planejamento e delinar a atividade.

Pode-se afirmar que as atividades apresentaram cunho educativo e participativo porque atrelaram estratégias coletivas e colaborativas de aprendizado13 moderadas no envolvimento e na participação dos integrantes, superando uma visão fragmentada do processo ensino-aprendizagem e da realidade.

Buscando facilitar o diálogo educacional permeado pela humildade,8,9 enquanto competência necessária para compartilhar saberes, os contatos iniciais voltaram-se à apresentação dos participantes e de suas expectativas com o grupo, retratadas nos excertos a seguir:

Sou a [nome], tenho 22 anos, estou no primeiro ano de enfermagem, e espero aprender, conhecer pessoas e, também, acrescentar alguma coisa para o grupo (Grupo)

Oi meu nome é [nome], tenho 18 anos, estou no segundo ano de enfermagem, e espero trocar experiências e conhecimentos com vocês, e adorei a nova forma de conduzir as atividades do grupo! (Status)

As apresentações dos envolvidos e os seus sentimentos foram importantes para favorecer um ambiente educativo dialógico, visto que, por meio do diálogo, as pessoas compartilham 'seus mundos', admiram-no, refletem sobre ele, constroem-no e o reconstroem. Por meio do diálogo, enfim, constrói-se a consciência pela reflexão-ação individual e coletiva, sofrendo uma influência da outra constantemente.8,9

Dessa forma, a aproximação dos integrantes pelo compartilhamento de expectativas e realidade fomenta a criação de um ambiente dialógico e, concomitantemente, a criação de um diálogo autêntico entre os pares.

Uma vez que o diálogo fenomeniza e traz a historicidade essencial à intersubjetividade humana, constrói-se a partir dos relacionamentos, para os quais a iniciativa de todos é necessária.8 Embasados nessa afirmação, apreendemos que os diálogos pelo Facebook® pautaram-se na interação entre os integrantes, estimulados pelo ambiente dialógico construído, desenhado na realidade de vida de cada indivíduo.

2) O lazer no diálogo entre os pares

A consciência do mundo deve ser buscada na reflexão sobre o próprio mundo vivido. Para isso, é necessário o encontro da sua própria consciência, que só ocorre pelo diálogo com o outro.8,14,15 Nesse sentido, nos momentos em que os acadêmicos expressavam suas vivências em relação ao lazer, apresentando ao grupo seu mundo, ocorreram o reconhecimento de si no outro e o reconhecimento de si mesmo pelo outro.8 Isso permitiu a criação de vínculo e empatia necessários para o diálogo autêntico, conforme é possível identificar na descrição das atividades de lazer que realizam:

Sair com as amigas e familiares, ir ao cinema, shopping, comer fora. (Post)

Descansar! (Inbox)

Saudade da minha bicicleta. (Postar)

Andar de roller também é lazer! Que saudade! (Post)

Ler alguma coisa que goste também é lazer! Ouvir música, dançar... (Selfie)

Para mim cozinhar é um lazer, adoro!!! (Comentar)

Piquenique: você come, descansa e reflete!! Três coisas boas de uma vez só (Emoticon)

Então, dá para cozinhar coisas para piquenique em família, ir de bicicleta, e depois queimar tudo no muay thai!! (Texto que comunicava risos) (Emoticon)

Ao refletir sobre suas próprias atividades de lazer, as acadêmicas refletiram sobre suas prioridades na organização das atividades que desenvolvem. Ao compartilhar essas informações com o grupo, permitiram a tomada de consciência sobre suas escolhas, permeada pela humildade e amorosidade, bem como a tomada de consciência coletiva, pela reflexão e construção em conjunto de uma consciência de mundo mais crítica. Ademais, a consciência de mundo só se fez em comunhão; então, ao compartilhá-las, aprenderam sobre si e sobre as demais. Essa vivência instaurou, portanto, o diálogo defendido por Freire.8,9

Embora as atividades consideradas como lazer para esses participantes sejam distintas, o fato de refletirem sobre si mesmos e sobre sua realidade e, posteriormente, apresentarem suas reflexões ao grupo, nos CCV, criou um espaço para o diálogo sobre o lazer. Esse feito aprofundou a consciência e os conhecimentos sobre a temática, estreitando as relações indispensáveis para conhecer o que lhe é diferente, permitindo o conhecimento contextualizado.15 Essa construção de saberes não é o reflexo ou o espelho da realidade, mas, sim, a tradução dos distintos saberes, seguida de uma reconstrução pessoal e coletiva, que foi permeada pelo diálogo autêntico nesses CCV.

Alguns momentos desse diálogo de aproximação de realidades entre as participantes estão representados nos recortes abaixo, quando retrataram a importância do lazer na vida e na saúde:

Não deveríamos não ter atividades de lazer, pois às vezes ficamos 'loucas'. Porém, é assim na maioria das vezes [...] (Post)

Então, vamos pensar!!! Qual a importância do lazer e das obrigações para nós, no nosso cotidiano? (Curtir)

Ultimamente as obrigações estão tendo muito mais importância que o lazer - o que não deveria ocorrer. Ambas deveriam ter prioridade na vida... (Feed de notícias)

[...] O lazer é importante para que deixe a vida mais leve, nos socializa... (Post)

Nesses momentos, o diálogo permeou a troca de experiências e de atitudes. As opiniões convergentes e divergentes apontaram os caminhos para novas práticas e novas percepções sobre o lazer, expressas nos trechos a seguir:

Acho que deve haver um equilíbrio entre os dois, para você não 'pirar', a gente acaba passando por cima do lazer com os estudos por falta de tempo, mas se nos organizarmos veremos que dá sim para ter lazer e estudo relacionados!!! Não sei se deu para entender. (Texto que comunicava risos) (Emoticon)

Eu sempre separei um dia na semana, para desacelerar mesmo, não importa o que tem para fazer (trabalho, relatório...). Parece que você está perdendo tempo, mas não, só ajuda!!! (Emoticon)

Infere-se, então, que o diálogo abre a consciência para o mundo comum das consciências, permitindo a criticidade e a formação de saberes que modelam as práticas. A comunicação em conjunto foi motivadora do diálogo autêntico e, por isso, percussora da construção do mundo comum.8,9 Dessa forma, as participantes do presente estudo dialogaram sobre suas estratégias individuais de lazer e discutiram sobre a relevância dessa prática para a saúde, construindo, coletivamente, novas estratégias que pudessem conciliar os momentos de lazer com as diversas atribuições acadêmicas. Nesse contexto, o diálogo pôde ser considerado autêntico por permitir a convergência, divergência e reconstrução de novos saberes que partiram do saber individual.

Cabe ressaltar que o diálogo também se faz em momentos de silêncio e de reflexão, intitulados momentos de solidão.9 Em CCV, apreendemos que esses momentos também estiveram presentes ao apresentar-se um caso clínico para discussão sobre o papel do lazer na assistência de enfermagem.

Delineado como uma doença crônica, passível de prescrições de enfermagem, o caso exigiu dos participantes uma reflexão crítica da realidade e a proposição de estratégias de ação. Percebemos que os momentos de solidão, apreendidos pela ausência de postagens e comentários, foram importantes para a reconstrução de seus saberes, uma vez que, para alcançar o aprendizado a consciência do mundo, adentra-se em reflexões lúcidas e silenciosas,8,9 permitindo que diálogos autênticos possam surgir para a construção coletiva de saberes e práticas.

3) Diálogo entre alunos e mediadores na construção de saberes sobre o lazer

O diálogo, para ser libertador, deve desenrolar-se na reflexão e no desvelamento crítico, buscando a comunhão entre as pessoas, a troca de saberes e de práticas mediatizadas pelo mundo.8,9 Pautada nesse preceito, desdobrou-se a atividade educativa em CCV, resgatando o diálogo horizontal entre educandos e educadores, aqui representados pelos participantes e mediadores. O diálogo entre eles deu-se por meio de mediações e de discussões, estimulando o desenvolvimento de ideias, reflexões e reconstruções.

Considerando a humildade necessária ao diálogo autêntico no sentido de respeito e valorização aos saberes, percebemos que essa postura foi necessária para a construção de vínculo, para o desenvolvimento das discussões e para a transformação de saberes. Isso se deu nos CCV ao estimular os envolvidos a buscarem resoluções de questões levantadas e ao construir momentos que permitiram a partilha de conhecimentos, acolhendo e respeitando seus saberes prévios.

Os excertos abaixo retratam o fragmento de discussão de um caso em CCV, quando as participantes apresentaram dificuldades para expor seus conhecimentos sobre as condutas de enfermagem no entorno do lazer e de seus benefícios em uma das condições crônicas mais prevalentes no Brasil: a hipertensão arterial. A participação dos mediadores frente a esse episódio reforça o caráter humilde, acolhedor e, ao mesmo tempo, disparador de diálogo:

Com certeza eu preciso aprender com vocês sobre o que fazer, pois achei minha resposta muito vaga ainda.... (Texto que comunicava risos) (Feed de notícias)

Percebemos que nessa atividade vocês estão com dificuldades, mas queria esclarecer que é necessário responder com base nas discussões do nosso grupo. Respondam com as palavras e percepções de vocês. (Comentar)

Eu o orientaria relaxar pelo menos uma vez por semana. Primeiro, por ser hipertenso, e segundo por trabalhar e estressar-se muito. Incorporar à suas tarefas um momento ou um dia, no final de semana, por exemplo, para descansar a mente e o corpo. Relaxar também é cuidar da saúde. (Inbox)

Qual a relação fisiológica entre estresse e hipertensão arterial? Acho importante pensarmos nessa relação. Vamos lá? Quem se habilita? (Compartilhar)

O estresse aumenta a pressão arterial. Então, é importante deixar claro isso. Quanto mais ele investir no lazer, melhor será seu tratamento e sua qualidade de vida. (Post)

Isso aí. (Curtir)

A intervenção dialógica das mediadoras foi de auxílio e estímulo à reflexão e à expressão das opiniões e dos saberes prévios, ao mesmo tempo em que conduziu aos desvelamentos, fomentando o diálogo autêntico pela construção coletiva e partilhada, conforme segue:

Em relação ao que foi dito, é importante a realização de uma ou mais atividades físicas supervisionadas, e também identificar os focos de estresse, se o problema é no trabalho, família ou outros, olhando-o como um todo, na sua integralidade, para que assim possam ser propostas medidas de intervenções e orientá-lo ao lazer... (Amigos)

Vocês trouxeram uma informação importante: o estresse aumenta a pressão arterial. Mas, como isso acontece? Quais mecanismos estão envolvidos? Vamos resgatar nossos conhecimentos de fisiologia? O estresse faz liberar mais adrenalina, atua no Sistema Nervoso Central, promovendo vasoconstrição periférica, aumento da frequência cardíaca e aumento da pressão arterial. (Post)

É isso! Meninas, vou compartilhar um vídeo para relembrar esse mecanismo [link do vídeo] (Comentar)

Isso mesmo! Gente, esse vídeo é bem explicativo. Vale a pena! (Curtir)

Precisamos lembrar, também, que o lazer não é só benéfico para o controle do estresse, mas ele também proporciona aprendizado, socialização, edifica nossa personalidade, favorece a autoestima, enfim, ele é instrumento diário e dependendo do tipo, agrega vários benefícios! Vocês concordam? Já pensaram nisso? (Compartilhar)

Nunca tinha pensado em todos esses benefícios. Compartilhar! Concordo (Comentar)

Eu também, nunca tinha notado!!! (Curtir)

Cabe ressaltar que poucas intervenções foram realizadas, pois os mediadores têm o papel de propiciar condições favoráveis à dinâmica do grupo e às discussões, reduzindo ao mínimo sua intervenção direta no curso do diálogo, com o objetivo de estimular a autonomia e a construção dos conhecimentos. Desse modo, houve um estímulo para a criação de espaços destinados à reelaboração e reconstrução de um mundo, que, embora também construído por eles, não é verdadeiramente para eles, e que, embora humanizado por eles, esse mundo não os humaniza.8,9 Afinal, somente por meio da comunhão e da união, as mudanças ocorrem nos homens e no mundo.8

Dessa forma, as mediadoras pautam-se na dialogicidade para realizar seus comentários e conduzir os alunos a refletirem sobre o processo de cuidar e sobre o lazer. Assim, assumiram o papel de direcionadores do conhecimento e das discussões, pois a construção conjunta dos saberes e das práticas só se realiza pelo diálogo autêntico.

Nesse processo, os mediadores cumpriram seu papel educativo dialógico, pois ensinaram e também aprenderam, em diálogo com o educando, desvelando um processo educativo em que ensinar e aprender somente se dão pela comunhão e pelo respeito aos saberes e às práticas.8,9

Refutando o diálogo opressor,8 os mediadores valeram-se de possibilidades de discussão que não fossem neles centradas. Pelo contrário, oportunizaram o diálogo libertador, como deve ser no processo educativo, no sentido de favorecer a busca de saberes balizada pela reflexão sobre o mundo, em comunhão com os outros.

Afastar-se da educação bancária que se utiliza do diálogo opressor, ainda muito presente em ações educativas, foi um desafio aos envolvidos nos CCV. Para promover uma educação dialógica e problematizadora, que rompesse com os esquemas verticais da educação bancária, foi necessário utilizar uma forma de diálogo que, de fato, permitisse a construção de conhecimentos calcada na liberdade de expressão, na autonomia de participação e na criticidade do que é comunicado.8,9,14

A dialogicidade horizontal e participativa foi relevante para a superação do conhecimento ingênuo e foi pautada na amorosidade, na humildade e na fé.9

O uso de abordagens dialógicas e a participação ativa do educando mostram-se fundamentais ao processo educativo emancipatório e para a mudança de paradigmas educacionais. Para isso, as ferramentas e as inovações tecnológicas, em especial as mídias sociais, são uma possibilidade de tornar o ensino dinâmico e provocador.16 A escolha do referencial pedagógico se fez pela compreensão por parte dos mediadores da importância do homem no seu meio e da sua capacidade de atuar sobre ele. O referencial de Freire reforça o diálogo e a valorização do educando quando trata da fé no ser humano, no seu potencial de construção, de reconstrução e de mudança por meio da dialogicidade, nesse caso, na construção do diálogo autêntico entre os alunos e os mediadores.

Nessas premissas, pautaram-se as reflexões sobre a atuação profissional do enfermeiro no lazer e influenciaram as acadêmicas a repensar o diálogo entre profissionais e clientes, levando à afirmação do desejo de mudança e de inserção da temática durante o cuidado realizado como enfermeiro:

E o que vou levar são as experiências de cada uma, e tentar melhorar meu relacionamento com os pacientes, principalmente perguntar o que eles gostam de fazer! Muito bom! (Selfie)

Sobre os assuntos, foram bem reflexivos e ao mesmo tempo somou em nosso aprendizado! Espero aplicá-lo em minha vida e na de quem eu for cuidar (Inbox)

Dessa maneira, o diálogo autêntico se deu através da palavra viva, que levou ao reconhecimento das consciências, expressou e elaborou o mundo, em comunicação e colaboração entre educadores e educandos. Esse processo permitiu que as alunas passassem da consciência ingênua - não relacionar o lazer como cuidado/prescrição de enfermagem - à consciência crítica, possibilitando reconstruir a assistência de enfermagem nessa temática.

Somente alcança-se a consciência crítica e o empoderamento por meio diálogo autêntico. Este tem papel central na prática cuidativa-educativa da enfermagem por garantir cuidados e autocuidado mais efetivos e profissionais mais preparados14 para assumirem as suas demandas e atribuições.

CONCLUSÃO

O desenvolvimento do CCV permitiu a construção do diálogo autêntico. O seu uso foi inovador no contexto de sua utilização e apresentou-se como uma estratégia de ensino que vem ao encontro das necessidades e dos anseios de educandos que vivenciam, cotidianamente, o mundo tecnológico.

Dessa forma, acredita-se que a mídia virtual Facebook® foi importante ferramenta de aprendizado e, ao mesmo tempo, de lazer, cujo uso enquanto proposta educativa pautada no diálogo tornou o processo educativo inovador, ativo e participativo.

Em relação à temática do lazer, pode-se ressaltar que o uso da mídia virtual foi capaz de transformar o saber ingênuo que inicialmente existia pelos participantes.

Considerando a relevância social da presente pesquisa, supõe-se que seja aplicável a outros contextos da prática de enfermagem, tanto no que se refere à educação da população quanto dos próprios profissionais da área da saúde. Este estudo traz contribuições científicas que aglutinam novas possibilidades de ensino e de pesquisa, e também de diálogo, em que o uso da tecnologia seja reforçado como ferramenta exequível e inerente à educação e ao desenvolvimento da ciência.

Contudo, a pesquisa apresenta limitações relativas ao número de participantes que, por ser pequeno, inviabiliza considerar que o CCV seja aplicável a um grupo maior. Nesse sentido, sugerem-se outros estudos que incrementem esses resultados.

REFERÊNCIAS

Mairs K, McNeil H, McLeod J, Prorok JC, Stolee P. Online strategies to facilitate health-related knowledge transfer: a systematic search and review. Health inf. libr. j [internet]. 2013. [Cited 2016 Jun 20];30:261-77. Available from: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/hir.12048/full. doi: 10.1111/hir.12048 Link DOI
Manca S, Ranieri M. Is it a tool suitable for learning? A critical review of the literature on Facebook as a technology-enhanced learning environment. JCAL. [internet]. 2013. [Cited 2016 Jun 15];29(6):487-50. Available from: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jcal.12007/full. doi: 10.1111/jcal.12007 Link DOI
Andrew L, Maslin-Prothero S, Ewens B. Enhancing the online learning experience usingvirtual interactive classrooms. Aust. j. adv. nurs. [internet]. 2015. [Cited 2016 Apr 01];32(4):22-31. Available from: http://www.ajan.com.au/Vol32/Issue4/32-4.pdf
Green JA, Choudhry NK, Kilabuk E, Shrank WH. Online social networking by patients with diabetes: a qualitative evaluation of communication with Facebook. J gen. intern. med. [internet]. 2011. [Cited 2016 Feb 13];26(3):287-92. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3043192/?tool=pubmed#!po=86.111. doi: 10.1007/s11606-010-1526-3 Link DOI
Sharma SK, Joshi A, Sharma H. A multi-analytical approach to predict the Facebook usage in higher education. Comput. hum. behav. [internet]. 2016. [Cited 2016 Feb 27];55:340-53. Available from: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0747563215301515. doi: 10.1016/j.chb.2015.09.020 Link DOI
Castro VC, Carreira L. Leisure activities and attitude of institutionalized elderly people: a basis for nursing practice. Rev. latinoam. enferm. [internet]. 2015. [Cited 2016 Jul 04];23(2): 307-314. Available from: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v23n2/pt_0104-1169-rlae-23-02-00307.pdf. doi: 10.1590/0104-1169.3650.2556 Link DOI
Trevisan DD, Minzon DT, Testi CV, Ramos NA, Carmona EV, Silva EM. Education of nurses: detachment between undergraduation courses and professional practices. Ciênc. cuid. saúde. [internet]. 2013. [Cited 2016 Jul 14];12(2):331-7. Available from: http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/CiencCuidSaude/article/viewFile/19643/pdf. doi: 10.4025/cienccuidsaude.v12i2.19643 Link DOI
Freire P. Pedagogia do Oprimido. 50 ed. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra; 2011. 184p.
Freire P. Pedagogia da Autonomia. 43 ed. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra; 2011. 144p.
Cellard A. A análise documental. In: Poupart J, et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis (RJ): Vozes; 2008. 464p.
Polit DF, Beck CT, Hungler BP. Fundamentos de pesquisa em enfermagem: avaliação de evidências para a prática da enfermagem. 7 ed. Porto Alegre (RS): Artmed; 2011. 669p.
Gil AC. Didática no ensino superior. São Paulo (SP): Atlas; 2006. 286p.
Biscarde DGS, Santos PM, Silva LB. Formação em saúde, extensão universitária e Sistema Único de Saúde (SUS): conexões necessárias entre conhecimento e intervenção centradas na realidade e repercussões no processo formativo. Interface comun. saúde educ. [internet]. 2014. [Cited 2016 Apr 01];18(48):177-86. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832014000100177. doi: 10.1590/1807-57622013.0586 Link DOI
Silva APSS, Pedro ENR. Autonomy in nursing student's process of knowledge construction: the educational chat as a teaching tool. Rev. latinoam. enferm [internet]. 2010. [Cited 2016 Apr 04];18(2):210-6. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692010000200011. doi: 10.1590/S0104-11692010000200011 Link DOI
Morin E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2 ed. São Paulo (SP): Cortez; 2000. 115p.
Fumian AM, Rodrigues DCGA. O Facebook enquanto plataforma de ensino. R. Bras.de Ensino de C&T [internet]. 2013. [Cited 2016 Apr 10];6(2):173-82. Available from: https://periodicos.utfpr.edu.br/rbect/article/view/1635/1042. doi: 10.3895/S1982-873X20130002 Link DOI

© Copyright 2017 - Escola Anna Nery Revista de Enfermagem - Todos os Direitos Reservados
GN1